Piracicaba / SP - segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Zumbido

1. O que é o Zumbido ?
 
Zumbido, acúfeno ou tinido (tinnitus, em inglês) é um som percebido nos ouvidos ou na cabeça sem que haja uma fonte sonora ao redor. É um sintoma (e não uma doença!) que geralmente tem origem em algum ponto da via auditiva, podendo estar frequentemente associado a algumas condições de saúde.
 
De acordo com pesquisa da American Public Health Agency, é o terceiro sintoma que mais causa incômodo perdendo apenas para dor e tontura intensas e intratáveis. Não tão raro, acomete 17 a 24% da população em alguns países. Possivelmente, pelo menos 28 milhões de brasileiros já vivenciaram este sintoma em alguma circunstância.
 
Muitos indivíduos apresentam o zumbido associado a outros sintomas como perda auditiva (90%), tonturavertigem e intolerância a sons (20 a 40%), tendo sua qualidade de vida prejudicada substancialmente.
 
Embora este quadro possa parecer dramático, raramente está relacionado a causas graves e pode ter solução na maioria das vezes, merecendo assim, uma investigação detalhada e personalizada para que seja escolhido o tratamento adequado para cada caso.

“...O som eu até posso ouvir, é verdade, mas não as palavras. Se alguém grita, eu não consigo suportar. Meus ouvidos apitam dia e noite...”
 
"...Meus ouvidos têm um zumbido, dia e noite. Posso dizer que estou tendo uma vida desgraçada, porque não posso contar às pessoas que estou ficando surdo. Só para que você tenha uma idéia dessa surdez singular, devo dizer que no teatro preciso me aproximar muito da orquestra para compreender o ator. Se me afasto um pouco, não consigo escutar as notas altas dos instrumentos e dos cantores, e se me afasto um pouquinho mais não ouço absolutamente nada. Consigo, volta e meia, ouvir uma conversa em voz baixa, mas não entendo as palavras, e se alguém grita a sensação é insuportável..."
(Beethoven, 1770-1827 – em carta a um amigo).
   
2.Tipos de zumbido
O zumbido pode se assemelhar a diversos sons como apitochiadocigarragriloabelhacachoeiramotorsirenepanela de pressão, etc. Mais raramente, o zumbido é rítmico, parecendo-se com batidas do coraçãocliques e “asas de borboleta”.
 
3.Causas do zumbido
 
Na maioria dos casos, o zumbido está relacionado a um transtorno em alguma parte da via auditiva, desde a orelha externa até o córtex auditivo. Assim, o zumbido não é uma doença, mas sim um sintoma que pode ter diversas causas, sejam elas provocadas por doenças localizadas no sistema auditivo ou por outras doenças originadas em outros órgãos que acabam por influenciar o ouvido secundariamente.
 
Podemos relacionar algumas das principais causas de zumbido:
- originadas no sistema auditivo;
- alterações no metabolismo (p.ex.:  do açúcar, de gorduras e deficiência de vitaminas);
- alterações hormonais (p.ex.: tireóide);
- alterações cardiovasculares;
- doenças neurológicas;
- distúrbios psiquiátricos;
- alterações odontológicas;
- alterações musculares da região de cabeça e pescoço;
- alterações psicológicas.
 
Usualmente, mais de uma causa está presente no mesmo indivíduo, o que explica a grande diversidade nos casos de zumbido, com suas particularidades, diferentes repercussões e respostas a um tipo de tratamento.
 
4.Investigação do zumbido
 
É importante lembrarmos que um mesmo indivíduo pode ter zumbido por um conjunto de causas. Além disso, cada paciente é diferente do outro, com suas particularidades, doenças associadas, estilo de vida, alimentação e genética.  Portanto, desvendar os “bastidores” de cada paciente com zumbido torna-se fundamental. A escolha do tratamento depende exclusivamente destes diagnósticos encontrados em cada paciente.
 
Assim, um histórico médico e exame físico detalhados são essenciais, onde serão investigados os diversos aspectos de cada indivíduo, com o objetivo de esclarecer: as características do zumbido (tempo de aparecimento, tipo, localização); os fatores predisponentes; sintomas associados (perda auditiva, tontura, sensação de ouvido cheio, oscilação da audição, sensibilidade aumentada a sons, ansiedade, depressão); antecedentes do paciente (p.ex. profissão, exposição a ruído, medicações, doenças concomitantes, cirurgias, bruxismo, problemas na coluna cervical, dores de cabeça, entre vários outros itens); hábitos e estilo de vida (abuso de cafeína, consumo de doces, dieta inadequada) e antecedentes familiares (p.ex. diabetes, surdez, labirintite, etc.).
 
A investigação prossegue com a solicitação dos exames complementares:
 
a) avaliação do sistema auditivo:
 
O médico otorrinolaringologista irá solicitar, inicialmente, exames como audiometria e imitanciometria com pesquisa dos reflexos estapedianos. Estes exames são fundamentais na avaliação da audição e podem fornecer pistas importantes para determinar a origem de cada zumbido. Recentemente, os otorrinolaringologistas especializados em zumbido, lançam mão de um teste específico para identificar o zumbido, medindo a sua intensidade e suas características (acufenometria e limiar mínimo de mascaramento). Este dado poderá ser útil para a decisão do tratamento a ser adotado, assim como para o seu acompanhamento. Em determinados casos, outros exames podem ser necessários para identificar uma sensibilidade aumentada a sons (limiar de desconforto) ou um teste mais amplo para a análise da audição nas freqüências mais altas (audiometria de altas freqüências).
 
b) exames laboratoriais:
 
Diversos exames de sangue são solicitados conforme o histórico médico apresentado pelo paciente. Habitualmente: hemograma completo, perfil lipídico, estudo dos hormônios tireoideanos, perfil glicêmico, dosagem do zinco e magnésio, reação sorológica para sífilis são realizados.
 
Outros exames que avaliam a via auditiva (p.ex. otoemissões acústicas, potencial evocado auditivo de tronco encefálico, processamento auditivo, etc.) e exames de imagem (p.ex. tomografia computadorizada, ressonância magnética, PET-scan, etc.) podem ser solicitados, como parte da avaliação complementar, se houver indicação, de acordo com os dados encontrados pelo especialista.
 
5.Tratamento do zumbido
 
Muitos pesquisadores ao redor do mundo estão empenhados nas pesquisas científicas sobre as causas e as formas de tratamento do zumbido. Atualmente, as perspectivas sobre o tratamento deste sintoma é mais favorável, admitindo várias formas de tratamento de acordo com cada caso.
 
Infelizmente, não existe uma “fórmula mágica” que seja “universal” e “incontestável”, que se aplique satisfatoriamente a todos os casos de zumbido. Conforme dito anteriormente, diversas condições de saúde podem cursar com zumbido, o que faz dele um sintoma comum a várias doenças. Desta maneira, os tratamentos propostos devem ser planejados baseados na(s) sua(s) causa(s).
 
Tratar o zumbido com o uso de medicamentos é apenas uma das alternativas de tratamento. Alguns melhoram com medicamentos e outros, com tratamentos não-medicamentosos como: dieta; mascaramento; TRT (tinnitus retraining therapy ou terapia de retreinamento do zumbido, ou ainda, terapia da habituação); adaptação de aparelhos para audição ou para zumbido; estimulação magnética transcraniana; fisioterapia (com busca e tratamento de pontos dolorosos específicos relacionados ao zumbido); psicoterapia e entre outros não tão convencionais.
 
O tratamento do zumbido é personalizado e está diretamente relacionado à identificação de cada um dos fatores causais!
 
a) Tratando a causa
 
A identificação dos fatores relacionados ao zumbido nos permite escolher uma série de opções terapêuticas, possibilitando o seu controle (e em alguns casos, até a cura) do zumbido com a simples reversão destes fatores (p.ex: dietas para alterações do metabolismo do açúcar ou de gorduras; restrição de cafeína nos casos de abuso de cafeína; readequação dos hormônios tireoideanos para alterações da tireóide; reposição de vitaminas e zinco para os que têm deficiência destes elementos; avaliação e tratamento com o fisioterapeuta se indicado; tratamento da ariticulação têmporomandibular com o dentista nos que têm comprometimento nesta região; psicoterapia quando causas emocionais estão envolvidas; cirurgias para correção de alguns tipos de doença no ouvido, como perfuração do tímpano, otoespongiose, etc). Assim, o primeiro passo deve sempre ser na direção da busca pela resolução das doenças de base que influenciam o aparecimento do zumbido.
 

b) Tratando zumbido e suas repercussões
 
Nem sempre, as causas são identificadas após uma investigação exaustiva. Outras vezes, mesmo que identificadas, não são passíveis de reversão. Nestes casos, opta-se pelo tratamento do zumbido (e não da sua causa) – frequentemente com emprego de medicações – e pelo controle das repercussões deste sintoma na vida do paciente.
 
A terapia medicamentosa é um recurso válido, de fácil realização pelo médico, com grande aceitação pelo paciente e com a possibilidade de fornecer um alívio rápido para o zumbido se comparado a outras formas de tratamento. As opções no mercado são várias, cada uma com sua indicação específica. Sempre devemos considerar a individualidade de cada caso, assim como a possibilidade de efeitos colaterais. Assim, o acompanhamento periódico com o especialista é importante para observação dos efeitos e para o bom andamento do tratamento escolhido.
 
Junto à terapia medicamentosa, o esclarecimento do paciente sobre o zumbido e suas prováveis causas é, sem dúvida, um ponto a favor da ação da medicação. A atuação positiva do cérebro (especialmente de uma região denominada “sistema límbico”) na interface doença-saúde associada ao tratamento pode proporcionar um alívio maior ao paciente.
 

c) Estimulando o ouvido – Tratamento da perda de audição
 
Pesquisas vêm mostrando cada vez mais que é fundamental estimularmos precocemente os ouvidos com perda auditiva, independente da presença ou não de zumbido. O objetivo é evitar que as células do cérebro se reorganizem de forma indesejada. Quanto maior o tempo sem estímulo, mais difícil será a readaptação.
 
A abordagem da perda auditiva também faz parte do tratamento do zumbido se esta perda for considerada importante – seja pela audiometria ou pela restrição e incômodo na vida do paciente.
 
Algumas vezes, um tratamento cirúrgico é indicado para reparar a audição, mas nem sempre a cirurgia é possível (ou porque as condições de saúde do paciente não permitem ou por opção do próprio paciente em não desejar um tratamento mais invasivo). Outros pacientes têm contra-indicações para o uso de medicamentos. Assim, em ambos os casos, o aparelho auditivo bem adaptado é um excelente recurso para melhorar a audição e/ou o zumbido.
 
Vale ressaltar que para os pacientes com zumbido, mas sem perda auditiva, existe ainda a possibilidade de adaptação de aparelhos com programação seletivapara o tratamento do zumbido.

Fonte: Instituto Ganz Sanchez